Os robôs estão se tornando cada dia mais capazes e
independentes dos humanos. É preciso desenvolver regras para
administrá-los. Mas talvez isso seja impossível.
No clássico filme de ficção científica “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, HAL,
o supercomputador da astronave (*), enfrenta um dilema. Suas instruções
requerem, tanto que ele cumpra a missão da nave — investigar um
artefato próximo a Júpiter –, quanto manter o verdadeiro propósito da
missão em segredo. Para solucionar a contradição, ele resolve matar a
tripulação. Conforme os robôs se tornam mais autônomos, a ideia de
máquinas controladas por computadores enfrentando decisões éticas está
saindo do reino da ficção científica e adentrando o mundo real. A
sociedade precisa encontrar modos de assegurar que elas estejam mais bem
equipadas que HAL para fazer julgamentos morais.
(*) Na foto-reprodução do filme “2001 – uma Odisseia no Espaço”, o
computador HAL diz ao comandante da astronave: “Dave… Eu receio que eu
não possa deixar você fazer isso…”
De
modo nem um pouco surpreendente, a tecnologia militar está na vanguarda
da marcha em direção a máquinas autônomas. A sua evolução está
produzindo uma variedade extraordinária de espécies. À medida que elas
se tornam mais inteligentes e comuns, é inevitável que as máquinas
autônomas acabem por fazer mais decisões de vida ou morte em situações
imprevisíveis, desse modo assumindo – ou parecendo assumir –
independência moral. Sistemas de armas atualmente contam com a
participação de humanos na cadeia de comando, mas à medida que se
tornarem mais sofisticados, será possível fazer com que as máquinas
sigam ordens de modo autônomo.
Quando
isso acontecer, elas serão confrontadas com dilemas éticos. Um veículo
aéreo não tripulado deveria atirar em uma casa que abriga um suspeito,
mas que também está servindo de abrigo a civis?
Um
carro sem motorista deveria dar uma guinada para evitar atropelar
pedestres se isso significar bater em outros veículos ou pôr a vida de
seus ocupantes em risco?
Um
robô envolvido em resgates em zonas de desastre deveria dizer a verdade
às pessoas se isso pudesse desencadear pânico? Tais questões fazem
parte da “ética das máquinas”, que pretende dar às máquinas a habilidade
de tomar tais decisões de modo apropriado, ou, em outras palavras,
distinguir o certo do errado. E o que é certo e errado nessas situações?
As
diretrizes mais conhecidas da ética robô são as “três leis da robótica”
cunhadas por Isaac Asimov, um escritor de ficção científica, em 1942
(foto). As leis determinam que os robôs:
1. Protejam os humanos.
2. Obedeçam às ordens deles.
3. Preservem-se, nesta ordem.
Mas essas leis não são úteis nem viáveis, no mundo real. Robôs de
combate podem precisar violar a primeira delas. Regular o
desenvolvimento e uso dos robôs autônomos requererá um arcabouço muito
mais elaborado e não se sabe se possível.
A evolução da estupidez
Desde
o seu aparecimento sobre a Terra, os seres humanos vivem em guerra uns
contra os outros. Na pré-história, matavam-se a socos, pontapés, pedras e
cacetes. Depois vieram os arcos e flechas, as espadas e catapultas. Com
a invenção da pólvora, apressaram-se em aperfeiçoas seus métodos de
assassinato em massa, com revólveres, fuzis, metralhadoras, bombas,
granadas e canhões.
Agora,
com essa coisa de qualidade duvidosa que chamam de “moderna
tecnologia”, os humanos estão novamente usando a imaginação para
desenvolver geringonças com um poder de destruição nunca visto antes.
Como sempre, os Estados Unidos estão na vanguarda da arte de matar e
destruir. Ou seja, as armas evoluíram, mas a mente violenta continua a
mesma do tempo das cavernas. Será que a criatividade voltada para o mal
pode ser chamada realmente de “criatividade”?
Robôs-armas
Armamentos
que podem ser disparados à distância não são nenhuma novidade. Mas,
cada vez mais, os robôs passam a ser uma realidade nos campos de batalha
– ainda que com desempenhos tímidos. Geralmente eles são utilizados
para desarmar bombas e não para fazer parte dos combates. Um grupo de
robôs estadunidenses foi enviado à guerra do Iraque, mas os robôs nunca
chegaram a disparar um tiro, porque o exército não tinha certeza que os
robôs não iriam surtar e atirar contra suas próprias tropas. O robô
sistema Maars, por exemplo, teve três exemplares enviados ao Iraque em
2009. Ele é um robô que pode ser equipado com quatro lançadores de
granadas e uma arma que pode carregar uma munição de até 700 tiros de
grosso calibre. Além disso, o equipamento pode liberar bombas de gás
lacrimogêneo ou de fumaça. Tem gente que chama isso de “desenvolvimento
tecnológico”…
Aviões robôs
Antes,
nós dissemos que os robôs não foram utilizados no Iraque porque podiam
não ser 100% seguros. Pois os aviões robôs, controlados remotamente, têm
exatamente este problema, mas já são utilizados em larga escala porque
têm um custo menor que os jatos supersônicos que eram utilizados. Os
drones de modelo Predator conseguem levar até dois mísseis Hellfire (a
tradução é “Fogo do Inferno…”), enquanto o avião maior, chamado de
Reaper, consegue carregar quatro mísseis e duas bombas de até 250 quilos
cada. O armamento não é 100% seguro, pois já causou acidentes que
mataram civis paquistaneses. Mas será que existe mesmo armamento 100%
seguro?
Cada “avanço” um problema
A
chamada “tecnologia” tem sido a marca registrada da história da
humanidade, desde a invenção da roda até a do colisor de hádrons (**).
Mas a verdade é que cada novo avanço gerou novos e graves problemas. Não
será diferente com as máquinas autônomas. Quanto mais cedo a questão da
independência moral que elas suscitam for respondida, mais fácil será
para a humanidade gozar dos benefícios que elas talvez possam trazer.
Isso se a questão puder ser respondida e se a “tecnologia” trouxer
realmente benefícios.
(**) O Grande Colisor de Hádrons (em Inglês,
Large Hadron Collider – LHC) é o maior acelerador de partículas e o de
maior energia existente do mundo. Seu principal objetivo é obter dados
sobre colisões de feixes de partículas atômicas. Na física de
partículas, os hádrons são partículas compostas, formadas por um estado
ligado de quarks. Os hádrons mais conhecidos são os prótons e os
nêutrons. O laboratório localiza-se em um túnel de 27 km de
circunferência e a 175 metros abaixo do nível do solo, na fronteira
franco-suíça, próximo a Genebra, Suíça.
Fonte:http://www.vocesabia.net/tecnologia/a-improvavel-etica-das-maquinas/
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